Mini case · Design com IA · 2026
Não é um case sobre ferramenta. É sobre o que fica visível quando você precisa explicar cada decisão em voz alta, antes de qualquer tela.
Cada instrução revelou uma lacuna no meu próprio raciocínio. A IA executava. Eu precisava pensar primeiro.
Contexto & desafio
Depois de quase cinco anos no BTG Pactual, precisava de um portfólio que fizesse uma coisa específica: convencer quem entende de processo que o meu é o que difere sênior de pleno. Não queria portfólio bonito. Queria portfólio honesto, com raciocínio explícito em cada decisão.
O problema real: o trabalho existia, os aprendizados existiam, mas documentar tudo isso com a qualidade que eu exigia levaria meses. A IA não foi atalho para qualidade: foi o que tornou possível fazer os dois ao mesmo tempo.
Que cada decisão tem raciocínio. Que os conflitos são expostos, não escondidos. Que os dados têm contexto. Que a voz é minha, não de template de portfólio.
Propor estruturas, escrever rascunhos, construir o visual. Com velocidade que eu nunca alcançaria sozinha. Sem o custo emocional de "jogar fora e começar de novo".
A tensão central
O conflito que nenhum artigo sobre "IA no design" menciona: a ferramenta é excelente em gerar. Ela não sabe o que é digno de existir.
"Cada vez que eu descartava algo que a IA gerava, eu precisava saber explicar por quê. Isso virou um espelho do meu próprio processo."
Aline Rezende · durante o projetoGera opções, propõe estruturas, escreve variações. Sem ego sobre o que é descartado. Sem custo emocional de tentar de novo. Disponível a qualquer hora.
Decido o que fica. O que soa autêntico. Onde o texto é genérico demais. Qual conflito do case importa contar. O que um designer sênior nunca publicaria.
A descoberta incômoda: nas primeiras sessões, eu descartava coisas por instinto mas não conseguia explicar o motivo. Ter que articular para a IA por que algo não funcionava me forçou a formalizar convicções que eu sempre tive, mas nunca havia colocado em palavras.
Como funcionou
A diferença entre usar IA como atalho e usá-la como ferramenta de raciocínio está no que você faz com a primeira resposta. Quase nada foi para o ar sem edição.
Definir quem leria e o que precisaria sentir
Antes de qualquer rascunho, eu descrevi para a IA quem era o leitor ideal do portfólio: um designer líder em fintech, que já viu portfólio bonito demais e quer saber se a pessoa pensa. Com esse contexto claro, as propostas da IA passaram a fazer sentido. Sem ele, tudo saía genérico.
Estrutura narrativa primeiro, visual depois
Cada case começou como uma conversa: eu contava o que aconteceu, a IA propunha como organizar. Testamos ordens diferentes de seção. Descobri que mostrar os resultados antes do conflito mata o interesse, porque tira o suspense. A estrutura final de todos os cases veio dessas tentativas.
Curadoria radical em cada rascunho
A regra que eu aplicava: se o texto poderia estar no portfólio de qualquer outro designer, era descartado. A especificidade foi aumentando a cada rodada. A IA aprendia com as correções e as próximas propostas chegavam mais próximas do que eu queria, mas nunca perfeitas. A edição final era sempre minha.
Visual construído como sistema, não como página
Tudo aconteceu direto no VS Code, com o Claude integrado ao editor. O projeto foi construído com um padrão visual consistente: quando uma decisão de cor ou tipografia era aprovada, ela se repetia em todas as páginas sem eu precisar copiar manualmente. A IA manteve essa consistência entre arquivos, algo que eu faria à mão e provavelmente erraria por cansaço.
Resultados
O resultado mais relevante não é o artefato: é o que ficou claro sobre como eu trabalho.
Cases completos publicados
Cada um com narrativa de processo, tensão explícita, decisões registradas e dados com contexto.
soualinerezende.com.br
De ideia a produto no ar
Não semanas. A velocidade não abriu mão de qualidade: abriu espaço para mais iterações no mesmo tempo.
Do primeiro rascunho ao deploy
Da voz é minha
Nenhum texto foi ao ar sem leitura crítica. A IA propõe dentro dos parâmetros que eu defini. Curadoria não foi delegada.
Revisão editorial · todas as seções
O que isso sinaliza para times que me contratariam: sei trabalhar com IA sem abrir mão de critério. Sei quando aceitar, quando reformular e quando descartar. Sei escrever instruções que produzem resultado dentro de um padrão de qualidade. Isso é habilidade de produto, não de ferramenta.
Aprendizados
Trabalhar com IA nesse nível de proximidade força um tipo de clareza sobre processo que a rotina de trabalho raramente provoca.
Você não sabe o que pensa até ter que explicar
IA não interpreta nuance. "Fica melhor assim" não é instrução. Quando sou forçada a explicar em termos concretos o que quero, descubro o que de fato penso. Esse exercício é desconfortável, e é exatamente o que separa convicção de intuição.
A ferramenta revela onde seu raciocínio ainda tem lacunas
Houve momentos em que descartei várias propostas seguidas sem conseguir articular o motivo. Isso me mostrou que eu tinha critérios implícitos que nunca havia documentado. Construir esse projeto foi também o processo de tornar meu próprio raciocínio de design mais explícito.
Velocidade muda o quanto você está disposta a tentar
Quando testar uma estrutura diferente custa minutos em vez de horas, você testa mais. Cheguei a experimentar quatro abordagens para o mesmo trecho antes de decidir. Sem IA, teria escolhido a segunda opção e publicado. A velocidade não é atalho: é condição para resultado melhor.
O risco não é a IA errar. É ela acertar de forma genérica.
Texto plausível que não é autêntico é mais perigoso que texto ruim, porque passa despercebido. A IA escreve bem. Por isso, a curadoria precisa ser mais rigorosa, não menos. A pergunta que eu fazia para cada parágrafo: isso soa como eu, ou soa como qualquer um?